quarta-feira, 6 de maio de 2020

Prega a palavra


“Pois a nossa exortação não tem origem no pecado nem tampouco em motivos impuros, muito menos temos qualquer intenção de vos enganar; pelo contrário, visto que somos homens de Deus, aprovados por Ele para nos confiar seu Evangelho, não pregamos para agradar pessoas, mas sim a Deus, que prova o nosso coração. A verdade é que jamais nos utilizamos de linguagem bajuladora, como bem sabeis, nem de artimanhas gananciosas. Deus é testemunha desta verdade.” (I Ts. 2:3-5, KJA)

Se precisássemos definir qual é a mensagem do Evangelho, como o faríamos? O que é esse Evangelho em que cremos e que nos foi confiado pregar sem bajulações ou artimanhas?

"Cremos que o Senhor Jesus Cristo, sendo o eterno Filho de Deus, movido de compaixão pela sorte da nossa raça, fez-se filho da virgem Maria, verdadeiro homem pelo poder de Deus, para se tornar o único Redentor e Salvador dos homens; que Ele cumpriu os preceitos da lei divina pela Sua vida imaculada e, na hora da morte na cruz, deu uma satisfação completa pelos pecados de seu povo; que ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, em sinal de estar satisfeita a justiça divina e que, tendo subido ao céu, alcançou por sua intervenção o salvamento dos que nEle crêem"1.

O Evangelho é a boa notícia de que Deus nos salvou, através do seu Filho eternamente amado. Pela ação e presença do Espírito Santo que nos convence e nos transforma, vemos nossa situação mudar após esse precioso encontro com Cristo. A história da Igreja é composta pela história de homens e mulheres comuns que se tornaram grandes homens e mulheres de Deus, agentes de profunda transformação social e espiritual. O que dizer de Martinho Lutero, Catarina Zell, Charles Spurgeon e tantos outros?
            
           No entanto, nos últimos anos temos visto uma alarmante mudança no meio cristão, por meio da qual muitas igrejas passam meses sem testemunhar uma única conversão. Não é incomum ver pessoas que “levantam a mão”, mas continuam da mesma forma que andavam antes. Por quê?

“Porquanto trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram objetos e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém!” (Rm. 1:25, KJA)
           
          Charles Finney, em seu sermão A conversão verdadeira e a falsa, diz que a diferença de um verdadeiro convertido para um falso não é percebida meramente por suas ações, mas por seus objetivos. Segundo ele, “O que é egoísta coloca sua própria felicidade e busca seu próprio bem porque é seu. De modo egoísta coloca sua própria felicidade por cima de outros interesses de maior valor; tais como a glória de Deus e o bem do universo”.
           
            A busca pela felicidade é um dos fatores que o mundo tem utilizado como forma de perverter a verdade de Deus. Quantos de nós já não ouvimos a máxima “Nada é errado se te faz feliz”? E, para desobrigar a consciência, quantos não utilizam o versículo “Deus é amor” com intenções próprias? Permita-me que eu o lembre: “Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que levam à perdição, e muitos são os que entram por esse caminho.” (Mt. 7:13, KJA)
            
           A verdade é que a mensagem da salvação só faz sentido na medida em que o ser humano se encontra em perigo, precisando de resgate. Quem é salvo é salvo de algo ou de alguém. E do que precisamos ser salvos?
           
“Digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo, e depois disso nada mais podem fazer. Mas eu vos mostrarei a quem é que deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, digo, a esse temei.” (Lc. 12:4-5, KJA)

E, ao contrário do que pode parecer, esse texto não fala do adversário das nossas almas, mas do próprio Deus. Deus é quem pode nos condenar, e precisamos ser salvos de sua ira e passar para o seu reino de amor.

“Entre os quais todos nós também, antes, andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos).” (Ef. 2:3-5, ARC)

Temos o costume de dizer que precisamos ser salvos da condenação do inferno, resgatados dos nossos próprios desejos pecaminosos e isso tudo é verdade. Mas nada suaviza o fato de que precisamos ser salvos da ira de Deus. Porque, afinal de contas, é a Ele que nossos pecados ofendem e é Ele quem pode nos lançar no inferno.

Então a mensagem de que Deus é amor precisa necessariamente ser acompanhada da mensagem de que Deus também é fogo consumidor, pois se não entendermos do que precisamos ser salvos, não seremos salvos. Não é a toa que João 16:8 diz que o Espírito Santo convence o mundo “do pecado, da justiça e do juízo”.

Jonathan Edwards, em seu famoso sermão Pecadores nas mãos de um Deus irado, afirma que “os não convertidos andam sobre o abismo do inferno em uma superfície podre, e há inúmeros lugares nela que são frágeis e não suportarão seus pesos, e estes lugares não são percebidos. As flechas da morte voam invisíveis ao meio dia, a vista mais acurada não as vê. Deus tem tão diferentes e insondáveis meios de tirar os ímpios do mundo e mandá-los ao inferno, que não há nada que faça crer que necessite de um milagre, ou que precise sair do curso ordinário de Sua providência para destruir um ímpio no momento em que desejar”.

A mensagem da condenação pela ira não significa que Deus seja mau. II Pedro 3:9 afirma que Deus “é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se”, mas a igreja não pode ignorar o fato de que já existe uma condenação pairando sobre a cabeça dos ímpios, afinal, o próprio Jesus disse, em João 3:18, que “quem não crê já está condenado”.

A mensagem genuína do Evangelho se encontra no equilíbrio dos atributos de Deus. Deus é amor, mas também é justiça. Deus é Santo, mas também é misericordioso. Deus é soberano, mas se relaciona com a sua criação. O mesmo Jesus que diz “amigo” também diz “raça de víboras”.

Quando separamos um atributo divino do seu contexto bíblico, pregamos um Deus que não corresponde ao Deus da Bíblia. Então, sim, devemos pregar bondade, mansidão e esperança. Mas não podemos nos esquecer da justiça, da ira e do juízo.

As músicas que cantamos e as mensagens que pregamos não devem colocar o homem em uma posição diferente da que ele está. A igreja precisa agir com a responsabilidade de quem sabe que recebeu a confiança de Deus para a pregação de Seu Evangelho. Omitir a verdade do pecador só faz com que ele permaneça com a condenação sobre sua cabeça. Portanto, amá-lo é não desistir de conduzi-lo ao Caminho, à Verdade e à Vida.

“Prega a Palavra, insiste a tempo e fora de tempo, aconselha, repreende e encoraja com toda paciência e sã doutrina.” (II Tm. 4:2, KJA)

Citação: 
1 Perguntas de profissão do Batismo, Manual do Culto da Igreja Apostólica Cristã – Pr. Adonias Roque de Souza,1962.

(Josy Negrin)

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